Olá leitores, estão bem? Antes de apresentar o livro, quero lembrar vocês que hoje, dia 09 de abril, comemora-se o Dia Nacional da Biblioteca! Eu frequentei bibliotecas durante toda minha infância, tenho ótimas memórias de quando minha mãe me levava, íamos todas as semanas. Era uma aventura imaginar qual o próximo livro que levaria para casa, assim nasceu meu amor pela leitura. Infelizmente, a biblioteca municipal a qual frequentava fechou pois não deram manutenção, mas nunca vou esquecer das tardes, dos cheiros e da felicidade que sentia todos os dias que a frequentava! Espero que as bibliotecas tenham forças nesse mundo atual para continuarem firmes e que outras pessoas possam aproveitá-las assim como eu aproveitei.
Hoje trago para vocês uma resenha de um clássico cheio de polêmicas que envolvem a história e seu autor. Um livro com muitas camadas, que envolve desde arte e autoconhecimento até entorpecimento e moralidade.
Escolha da edição:
Pesquisei bastante sobre esse livro, de cara podemos ver que é um texto que foi censurado na época de sua publicação, e isso pode resultar em perdas das versões originais e textos mal traduzidos. Para quem quer ter uma experiência completa da obra, indico a versão da Darkside Books. Ela tem um prefácio muito bem escrito de Enéias Tavares, que nos contextualiza com toda a comoção autor/personagem antes de começar a história. Também conta com notas de Luiz Gasparelli Jr. que foi minha parte favorita da edição, as notas mostram referências à vida do autor, mitologia, costumes da época e nos indicam as partes que foram censuradas/cortadas na edição inicial. E não acabou, o livro conta com páginas contendo as críticas publicadas pelas revistas e jornais da época em que o livro foi lançado (juntamente com as contra-respostas do autor), uma seção de poemas de Wilde e alguns retratos. Sem falar que esteticamente, é linda.
Um breve resumo:
A obra se passa na Inglaterra vitoriana no século XIX, quando Basil Hallard, um artista em ascensão, está fazendo um retrato de um belo jovem burguês chamado Dorian Gray, o qual está fascinado e julga ser a obra de sua vida. Basil, apresenta Dorian a seu amigo Lord Henry Wotton, um aristocrata cheio de opiniões. Lord Henry com sua visão hedonista, afirma que a juventude, os prazeres e a beleza são os aspectos mais importantes em nossas vidas. Dorian se vê fascinado e influenciado por essa admiração que seus companheiros expressam, assim como o estilo de vida luxuoso e considera o pior: venderia sua alma em troca da juventude, deixando o seu retrato envelhecer em seu lugar. A partir de então Dorian, sob influência de Lord Henry, começa a viver uma vida libertina, explorando sua sensualidade e cada vez mais obcecado por sua juventude e beleza, o que o leva a esquecer o impacto moral de suas ações. Seu desejo se realiza, e seu retrato trancado em um quarto passa a refletir uma imagem horrível, o reflexo de sua alma corrompida.
A polêmica por trás do livro:
O livro foi publicado como novela em 1890 e essa primeira versão teve cortes bruscos de mais de 500 palavras que remetiam à homossexualidade. Já em 1891, como romance, Wilde incluiu em sua obra um prefácio onde defendeu as intenções de seu romance e rebateu críticas. Isto ofendeu a moral dos críticos britânicos que acabaram por acusar Wilde de violar as leis que regem a moralidade pública. De acordo com os mesmos, os jovens que entrassem em contato com a leitura teriam suas mentes manchadas por influências à homossexualidade, definindo o livro como impuro, mal, efeminado e venenoso.
Wilde também foi diretamente acusado, pois via-se muita semelhança entre ele e seu personagem. Mesmo casado e com filhos, parecia ser Dorian Gray um alter ego de Wilde. Wilde andava frequentemente em companhias masculinas mais jovens (o qual assumia que trocavam presentes) e perambulava por bares e locais frequentados por pessoas homoafetivas naquela época. Em sua obra, é possível ver dezenas de referências que comprovam isso.
"O tom verde-oliva, no período vitoriano, era frequentemente associado à homossexualidade. Por exemplo, uma flor de cravo tingida de verde na lapela era um código para identificar seu portador como homossexual. Oscar Wilde era recorrentemente visto com uma flor dessa tonalidade."
Quando publicada esta obra, Wilde já era conhecido por suas peças e poemas, e o choque na sociedade foi grande. O pai de um poeta com o qual Wilde manteve um relacionamento acabou o denunciando por manter relações sexuais homoafetivas, o que na época era crime na Inglaterra e foi a gota d'água. Wilde foi preso em 1895 após julgamento, onde frases do seu livro foram lidas em voz alta. Realizou na prisão trabalho forçado e lá adquiriu muitas condições e doenças. Foi libertado após dois anos, em 1987, mas nunca foi o mesmo. Passou a morar em locais precários e não conseguiu escrever mais nada de relevante, porém não deixava de apoiar "o amor que não ousa dizer seu nome". Wilde morreu em 1900 após um ataque de meningite agravada pelo álcool e pela sífilis.
Minha leitura:
Dorian Gray foi uma grande aventura, pois aborda muitos temas ao mesmo tempo: a inocência, a manipulação, a imortalidade, o reflexo de suas ações em sua alma, a mitologia de Narciso e Adonis, a crítica embutida a era vitoriana preconceituosa da época, a referências como Shakespeare e Fausto. Tudo sobre Dorian Gray foi calculado por Wilde, a forma como ele muda o foco narrativo durante a obra, as referências que traz nas entrelinhas e a forma que descreve sobre assuntos tão delicados. A minha leitura foi interrompida por um tempo por uma perda familiar, mas quando retomei senti que não havia perdido e esquecido nada da história.
Como sempre, fazendo minha pesquisa de campo, percebi que muitos leitores acham a leitura bem descritiva e monótona. Eu, não percebi, achei uma leitura muito rápida e simples. A história em si é breve, o que demora é se aprofundar nessa jornada. A edição da Darkside me ajudou muito, pois julgo que se fosse ler um livro dessa magnitude sem as notas e todos os anexos, perderia muita informação sobre a obra. Sou a favor dos textos complementares, nem sempre conseguimos captar tudo que o autor tem a dizer.
Este livro é especial pois nos faz ver o outro lado, o de quem escreve. Wilde colocou em sua obra um pouco de si e de seu sofrimento, se identificou como um personagem pois na época era o que estava em seu alcance, como podia se expressar. Wilde também mostrou coragem ao publicar esta obra que era ousada para a época. Agora cabe a nós, leitores do século atual, mudar a estética imposta no livro e não o tratar como um livro proibido e conturbado, e sim como uma obra de um homem inteligente, astuto, talentoso, à frente de seu tempo e com ânsia de liberdade.








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